Malu Mader

DE CARA LIMPA

 

 

 

Ela deixa tudo às claras e, dependendo da revista, às escuras. Para ELLE a protagonista

 de Celebridade abriu até a nécessaire. Falou do marido, dos filhos e dos defeitos que só ela vê.

 

 

Malu Mader acaba de desembarcar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. De camisa branca, jaqueta e calça de veludo cotelê pretos. "É minha roupa de ponte aérea", diz. São anos num bate-e-volta entre o apartamento de Ipanema, bairro da vida inteira, e a casa numa rua sem saída no bairro paulistano dos Jardins, para onde ela leva a reportagem de ELLE. "Sou apaixonada por este lugar", confessa, fazendo sinal para a gente entrar. "Dá pra ver a lua e as árvores cheias de passarinhos".

Essa Malu, simples e descontraída, ninguém vê nas revistas de TV. Avesso da Maria Clara, sua personagem na novela Celebridade, ela tenta ficar fora do foco dos Paparazzi. "Tenho o direito de não querer abrir mão da minha intimidade", diz. Nem sempre consegue. De volta à telinha depois de uma ausência de quatro anos, a atriz lida de novo com  as fotos roubadas à distância e frases que jura nunca ter dito. Pipocam histórias de Malu e do marido, Tony Bellotto, guitarrista dos Titãs, e dos filhos João, hoje com 8 anos, e Antônio, 6. "Fico aviltada quando escrevem algo que não é verdade".

Não que ela não goste de dar entrevista. Na verdade adora. É dar corda que ela desanda a falar. Muito. Rápido. Na mesma velocidade, que muda de assunto. Fala até dos defeitos que ninguém enxerga. "Sou cega", conta. Tem astigmatismo e hipermetropia - 5 graus no olho direito e 3,75 no esquerdo. Rói unha desde de pequena. "Tenho aqueles dedinhos redondos, sabe? Por causa da novela, está de unhas postiças. "Nunca tive muito peito", revela, emendando que, por serem pequenos, nunca usa sutiã. Por fim, garante que não nasceu pra ser modelo. "Não que eu não seja fotogênica. É vergonha mesmo", diz Malu, nascida Maria de Lourdes, no Rio de Janeiro, há 37 anos. Entre mordidas na bolacha salgada e goles de refrigerante light, ela conversa com ELLE e mostra por que nenhum desses defeitos tem importância.

 

Os jornalistas da novela são canalhas, bêbados. Dá até medo de como você, na vida real, vai lidar com a gente.

Na novela tratamos de um jornalismo oportunismo, que fala de um mundo cafona, como se celebridade fosse mito. Mito é uma personalidade, Alguém que tem uma grande obra.

 

Mas existe curiosidade por esse mundo. Dá pra ficar fora dele?

É impossível. Todo mundo quer ler, até porque o ridículo humano é atraente. As revistas estão no direito de tentar matérias e fotos. Quem não quer abrir a casa e a intimidade deveria ter o direito de não aparecer. É um problema de respeito mútuo. E nesse mundo brega por excelência os valores são bem rasteiros. O que vale é dinheiro, dinheiro, dinheiro. A única arma que tenho é não dar entrevista ou sair o mínimo possível.

 

Você desgosta da imprensa?

Em 20 anos de carreira passei por vários momentos, inclusive de desilusão e de ficar arredia. Mas, apesar dos meu grilos, continuo querendo manter o coração aberto e com boa fé - embora ache que devia falar menos na maior parte das vezes.

 

O que a incomoda mais?

Me preocupo em ter uma imagem que corresponda  ao que realmente sou. Fico aviltada quando escrevem algo que não é verdade. A uns tempos publicaram a seguinte frase atribuída a mim: "Sou rica e tenho um affair". Jamais diria uma coisa dessas!

 

Quais são seus valores?

Os valores que me pautam são os mais manjados - justiça, respeito, amor e  compaixão. Eles me guiam, mas isso não quer dizer que sou santa. Nem sempre acerto, mas tento.

 

E família?

É fundamental. Herdei isso do meu pai. Ele adorava levar a gente para aquelas reuniões de família com 50 pessoas. Com meus irmãos, tenho uma relação simbiótica. S e eles viajam tudo fica mais sem graça. Minha mãe, nem se fala. Quando o Tony vai fazer show, ela fica comigo. Quase que a gente é marido e mulher.

 

Como é estar casada há 15 anos?

O casamento tolhe, mas o Tony nunca  teve essa intenção. É isso o que mais prezo no meu casamento. Ele me dá liberdade e ao mesmo tempo é atento e carinhoso. Nunca corta a minha onda. É a medida perfeita. Ele é um sábio, especial mesmo.

 

Há diferença de ritmo entre vocês?

Tony é totalmente de ouvir. Imagine  se eu tivesse com um homem que falasse feito eu! Ele é mais educado, mais atencioso. É pura classe - mas também é capaz de rompantes maiores do que os meus.

 

Vocês brigam por quê?

Brigamos por fome. Percebemos  isso logo no primeiro ano de namoro numa viagem. Quando atrasávamos a hora de comer, discutíamos. De resto, brigamos por coisas pequenas, tipo eu quero sair e ele quer ficar em casa. Desde da adolescência tenho complexo de deus - quero estar em todos os lugares ao mesmo tempo. No começo o Tony falava: "Tô louco pra você fazer trinta anos", para vê se eu sossegava. Mas acontece uma coisa bonita no casamento: um acaba pegando as coisas do outro. Hoje fico mais em casa e curto os prazeres da solidão. E ele ficou bem mais sociável.

 

Não rola nem ciúme?

Tive três namorados pra valer ( entre eles o ator Taumaturgo Ferreira com quem ela morou ). Estava sempre perdidamente apaixonada e infantilmente achava que o ciúme era um tempero do amor. Mas eram relacionamentos que começavam em curva descendente  e me deixavam com a respiração curta. Ainda não tinha experimentado essa coisa gostosa do amor maior, que faz bem. Se o Tony sente ciúme não sei dizer. Ele é generoso, compreensivo, não tem pequenezas. Parece que tem um cara mais velho no corpo dele.  Também, para ficar enciumado ele teria que se sentir ameaçado, o que nunca aconteceu.

 

Você faz o gênero supermãe?

Sou muito presente. Sei se eles têm um aniversário, se levaram casaco. Voou a todas as apresentações, feira de ciências. Pela primeira vez faltei a uma apresentação por causa do trabalho. Mas é claro que o Tony estava lá.

 

Como os meninos reagem a novela?

Assistimos todos juntos. Quando tem cena de beijo, o Tony brinca: "Ai meu deus! Cena de beijo!" Eles também levam na brincadeira. É melhor que vejam para saber o que responder se alguém encher o saco. Estou segura do que faço e eles sabem bem que meu trabalho inclui entrega física.

 

Você já contracenou com a bunda do Thiago Lacerda, mas a recíproca não é verdadeira. Nas cenas na cama, esta sempre coberta. É pudor?

Não, é autopreservação. Podendo evitar, evito ficar nua. Principalmente na TV, quando a nudez pode parecer apelativa, ser confundida com ibope. Não sou moralista, já fiquei nua quando achei que devia. Mas a nudez nem é mais transgressora, o que é uma pena. No caso do Thiago Lacerda, fazia sentido para a narrativa.

 

Quais são seus maiores pecados?

Ira é um deles. A gula também. Como de tudo - lanche, petisco, patrão, café com leite, doce. Antes  era mais bife com batata frita. Agora expandi para a culinária italiana, francesa, indiana, chinesa, portuguesa...

 

Você cozinha?

Quando me proponho, pego receita e até rola, mas o Tony é quem tem jeito mesmo. Tudo o que ele prepara fica mais gostoso.

 

Você encara exercícios?

O máximo que eu fazia era fechar a boca, mas ficava infeliz. Agora o bicho pegou. Comecei a correr.  Também faço um pouco de peso ( com o personal Leopoldo Moraes ) . Mas o padrão musculoso de beleza não é a minha. So não quero deixar nada cair.

 

E plástica faria?

O problema é que pessoas estão ficando idênticas, como se fossem  andróides. Se alguém fica feliz pondo silicone, vai lá. Mas temos que pensar em por que ficamos mais felizes com isso. É tão mais barato e saudável curti a imperfeição. Quisera eu ter um peitão. Com a amamentação eles mudaram, mas tudo bem.

 

Que outras imperfeições você enxerga no seu corpo?

Sempre me acho mais bonita quando focalizam o lado esquerdo do rosto. Minha boca é um fiapo e por isso detesto batom. Uso hidratante labial (L' Occitane ou Body shop ) ou uma cor bem leve ( Boddy Brown )

 

Nunca teve vontade de ver um reflexo diferente no espelho?

Tirei um pouco da sobrancelha. Achei que com a idade começou a pesar. Os cabelões são outra história. Tenho ombros largos e rosto pequeno. O cabelo comprido suaviza a diferença. Temos que saber lidar com a proporção.

 

Essa história da proporção vale também para as roupas?

Tenho canela fina e torta, então uso saia bem comprida ou torta. Também escolho peças que valorizam mais os ombros do que os peitos, mais as costas do que a barriga. Costumo vestir Forum, Maria Bonita, Alexandre Herchcovitch, Walter Rodrigues, Glória Coelho e Reinaldo Lourenço. Lá fora, gosto de Calvin Klein, Chloé, Gucci, Donna Karan. Adoro estampa e cor, mas acho difícil de usar. Acabo no branco e preto.

 

São suas cores-uniformes?

Meu uniforme é camiseta branca, preta ou jeans. Também gosto de veludo cotelê. Para sair à noite, troco as botas e o all star por sandálias de salto. Adoro Manolo Blahnik. Não uso jóias. Gosto de ficar limpa.

 

Essa limpeza vale para o make up?

Em geral uso só rímel (Lacomê). À noite, gosto de me maquiar um pouco.

 

Como você cuida da pele?

Usei cara limpa a vida inteira. Daí me dei conta de que todo mundo da minha idade fazia algo pra cuidar da pele e eu nada. Hoje lavo o rosto com um sabonete, que faz uma espuminha maravilhosa ( gel purificante effaclair, da La Roche - Posay ) e passo hidratante (hydraphase, da mesma marca)

 

Tem  medo de envelhecer?

Não. Envelhecer não é de todo agradável, mas faz parte da vida e eu gosto de viver. Tenho medo é de morrer  Aliás, adoro uma frase que eu acho que é do Oscar Wilde: "Não tenho medo da morte, o que me apavora é a aproximação dela " .

 

Reportagem de Simone Esmamhotto publicada em Elle ano 15, n° 12 de dezembro de 2003

Fotos originais de J. R. Duran